quinta-feira, maio 11, 2006

A Passo de Flamingo, do Canto Natalício

A lenda de Giraldinha

Era de lá do Sul;
Do quente de Agosto;
Do seco, árido Algarve.

Era de lá, não se sabe bem de onde,
Mas de um lugar profundo
Que eclodia o eco distante.

“Giraldinha, giraldinha”
Assobiava assim, compacto e herculeamente,
Esse som

Eis então, qual cavaleiro andante,
Num galope, galopante
De chicote, vacilante
Flácido: o chicote
A pingar
A pingar
A pingar

(Mas com o florido ramo em riste)
… suor que se misturava
Com o pó da terra
Do calor desse Agosto,
Naquele Algarve

Giraldinha, lá foi Pé ante pé
Enleado por essa voz
Dizia: “giraldinha, giraldinha”

Caminhou, como disse,
Pé ante pé
Tal como os flamingos,
- sejamos sinceros,
Dos flamingos apenas lhe falta
A rosa da cor
Do Cor-de-rosa

Não excedia nos gestos delicados,
E a voz,
Se alguma vez se pareceu com um qualquer som másculo,
Foi por mero acaso,
Ou então, na sua modesta perspectiva,
Um infortúnio.

Os gestos, eram esse movimentos assustadores,
Que assustaram as mais tenebrosas hostes algarvias.
Esse cruzar das mãos e levá-las à altura do peito,
E rugir assim, nesse tom
Tão seu;
Tão feminino

Giraldinha tinha esse vício
O de levar as coisas ao peito.
Fazia-o com o coração
Tal como quando criança fingia brincar às corridas
E esticava os braços
Para segurar dessa forma o imaginário volante

Geraldinha
Foi assim rumo ao sul
Por esse calor
Aquele pó

Geraldinha
Levava nos braços esticados
O coração
Esquecendo-se, porém,
Do jogo da verdade ou consequência
Das suas farpas

“Geraldinha, geraldinha”
Ouvia num tom em tudo idêntico ao
“Oh, oh, oh…” natalício
Desse velho que te diz que nem tudo é natal

Vá lá, sacode esses flocos de neve do cabelo

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